-I-

O casamento

-III-

yule

Quase um ano havia se passado desde o resgate de Astrid. Embora a autoridade de Eiðr já fosse bem questionada, um novo e rigoroso inverno fez com que as diferenças ficassem de lado, pois a prioridade era a sobrevivência.

Logo após o resgate, o Rei Eiðr havia convocado os Jarls mais importantes e sugerido a organização do maior festival de Yule que já havia sido feito. Uma celebração para chamar a atenção dos deuses, unir o povo e promover uma grande renovação na vida de todos. Embora a lealdade dos homens ao Rei vacilasse, ninguém questionou aquela sugestão.

E havia chegado a hora. A primavera, o verão e o outono haviam passado como um piscar de olhos, e um novo e rigoroso inverno batia às portas de todos. Os dias eram mais curtos, e ainda assim o trabalho era árduo, exigindo muito do povo. Numa noite, após um dia difícil, muitos jovens estavam reunidos em volta de uma fogueira, e o ancião Einar tentava fazê-los esquecer do frio e de suas barrigas vazias, além de ensiná-los um pouco das antigas tradições.

– Por que celebrar bem no meio do inverno? – perguntou um menino, filho de um dos fazendeiros, que não entendia todos os preparativos que estavam sendo feitos – Não deveríamos estar poupando comida?

– Devemos celebrar para dar adeus a um período e boas vindas ao outro – explicou Einar. – Apenas com uma verdadeira renovação podemos superar nossos tempos mais sombrios. Além disso, é nessa época do ano, quando as noites são mais longas, que Odin pode ser visto cavalgando Sleipnir pelos céus.

Toda a história de renovação era abstrata demais para os jovens entenderem, mas a menção ao pai dos deuses montado em seu cavalo de oito patas imediatamente capturou a atenção de todos, e muitos olhos brilharam.

– Vamos poder ver Odin? – perguntou uma menina.

– Talvez, se conseguirmos chamar a atenção dele – respondeu o ancião. – Odin, que muitas vezes também é chamado de Pai Yule, pode muito bem nos fazer uma visita.

– Meu pai disse que os porcos que nós criamos são os mesmos que os guerreiros comem em Valhalla – disse um outro menino, que por acaso era filho de um açougueiro.

– Seu pai está certo. Todas as noites, em Valhalla, os Æsir e os einherjar comem a carne do javali Sæhrímnir, e ele é trazido à vida de novo para dar sustento no dia seguinte. 

– Nossos porcos não voltam à vida... 

– Não – reconheceu o ancião – mas ainda assim vocês devem agradecer aos deuses pelos porcos, pois mesmo quando sacrificamos e comemos a carne de um porco, a prole dele cresce para nos dar mais carne e sustento no ano seguinte. E cada vez que nós comemos o gordo e suculento pernil de um porco no Yule, estamos comendo como os deuses e os guerreiros em Valhalla.

Einar contou ainda outras histórias sobre os deuses, sobre a Caçada Selvagem que acontecia nas noites de inverno e sobre os feitos dos antepassados naquele povo, plantando naqueles jovens a semente do entusiasmo pelo Yule e tentando ensinar a eles toda a importância daquela celebração.

– O Yule é um período de transição – insistiu o velho, agora que havia cativado aqueles corações jovens – nosso povo está prestes a terminar um ciclo e começar outro. Vocês estão preparados para o que as Nornas estão fiando?

Naquela mesma noite, não muito longe dali, um fogo queimava no longo salão, e em volta estavam reunidos o Rei Eiðr, sua filha Astrid, seu genro Earnán e Thorbjörg, a völva, que desde o ano anterior era recebida com honras ali e estava sempre presente nos momentos mais importantes. Os conselhos da völva haviam sido valiosos para o rei quando ele precisava resgatar sua filha, e nesse momento eles contavam com a voz sábia e a presença carismática dela para agregar as pessoas durante a celebração do Yule, que estava sendo cuidadosamente planejada.

– Todos os Jarls convocados virão? – questionou Earnán.

– Não temos como saber – respondeu Astrid. – O que importa é que todos estão respeitando esse momento de... calmaria. Não houve grandes expedições este ano e provavelmente não haverá no ano que vem. Apenas os drakkares do Jarl Bjorn estão em bom estado, e pelo que sabemos ele não voltou do oeste, então ele não deve estar presente no Yule...

– E o Jarl Uffe?

– Este deve vir com certeza. Já prometeu muitos animais para o sacrifício.

Eles começaram então a discutir como aconteceriam os rituais, e a völva, que falava pouco, sugeriu que o povo fosse envolvido nos ritos, especialmente as mulheres, com as canções do Vardlokur. Astrid e Earnán concordaram, e olharam para Eiðr em busca de aprovação.

– O que você acha, meu pai?

Apesar da ideia da grande celebração ter partido do rei, ele cada vez opinava menos, e demorou para responder a pergunta de Astrid, como se sua mente vagasse por outro lugar enquanto aquela conversa acontecia.

– Pai?

– Sim, minha filha – disse o rei finalmente – vamos fazer desse jeito.

Faltavam poucos dias para o Yule, logo os primeiros visitantes começariam a chegar. Grandes clareiras foram limpas na floresta, para que as tendas pudessem ser montadas e até um pequeno mercado pudesse acontecer ali. Tudo indicava que, de fato, aquela seria uma grande celebração.

Restava saber se os deuses estariam presentes...

O dia amanheceu já com muitos visitantes no acampamento onde ocorreria a celebração do Yule. Antes que o sol aparecesse, Astrid já estava acordada em sua tenda, e quando Earnán acordou a encontrou sentada do lado de fora, sozinha, olhando para as cinzas da fogueira da noite anterior e refletindo tristemente.

Ele a abraçou por trás, envolvendo-a com seus braços fortes, e beijou seu pescoço. Mas Astrid sequer esboçou uma reação, e ele apenas ficou ali, tentando transmitir forças para ela, pois sabia o que a afligia.

Juntos, voltaram ao grande salão, onde o Rei Eiðr dormia, e o encontraram no chão, sobre peles, perto da grande cadeira de madeira que ele ocupava durante os things. Certamente não parecia um rei, mas simplesmente um bêbado que havia entrado naquele salão por engano e dormido ali perto do calor do fogo. As duas jovem thralls que passavam as noites com o Rei estavam ali, mas já estavam acordadas.

– Inger, quanto ele bebeu ontem à noite? – perguntou Astrid a uma das jovens.

– Muito, minha senhora...

Gentilmente, Astrid tentou acordar o pai. Tentou dizer-lhe que era hora de levantar e receber seus convidados para o Yule, e mostrar-lhes sua força. Insistiu durante alguns minutos, sacudindo os ombros largos do pai e falando perto de seu ouvido, sem sucesso. Sem que ela percebesse as lágrimas vieram, enquanto ela suplicava para que ele não desistisse e levantasse.

Mas ele sequer acordou. Então com ajuda das duas jovens e de Earnán, ela levou o pai para a cama. Durante algumas horas ficou ali, cuidando dele, até a hora de receber os convidados no lugar do rei. Então deixou ordens para que as duas jovem thralls cuidassem dele, limpou as lágrimas, deu o braço para Earnán, e juntos saíram novamente do salão para o frio da tarde, em direção ao acampamento no meio das árvores.

Conforme se aproximavam da clareira com as tendas, viram que uma grande quantidade de pessoas já estava ali reunida, e a coragem de Astrid falhou.

– Earnán, eu não sei se consigo...

– Quer que eu fale por você?

– Você sabe o que dizer?

Mas ele com certeza sabia. Ele estivera presente todas as noites com Thorbjörg e Einar enquanto o Yule era planejado. Na verdade, ele estivera mais presente do que o próprio Rei Eiðr. É claro que Earnán saberia o que dizer.

 

Ao ver Astrid e Earnán se aproximando, um dos homens fez soar um chifre em meio à multidão, anunciando a chegada dos dois. O povo fez silêncio e timidamente observou enquanto eles se aproximavam e ocupavam o centro da grande clareira.

– Povo do Norte, aproxime-se – disse Earnán, e aguardou que as pessoas fechassem o círculo em volta deles antes de continuar. – Eu sei que muitos de vocês ficaram descontentes com a minha chegada há um ano, mas como se lembram, Astrid, minha amada e nossa futura rainha, foi salva. Nós temos passado por muitas dificuldades e o inverno, mais uma vez, está sendo rigoroso. Por esse motivo a princesa Astrid mandou chamar uma velha conhecida do povo do Norte.

 

– Sim, meu povo – tentou falar Astrid. – Mandei chamar a völva Thorbjörg, a única das dez irmãs adivinhas que ainda vive. Ela virá em breve para...

A voz de Astrid fraquejou. Earnán tocou seu ombro e ao mesmo tempo fez um sinal sutil para alguém no meio da multidão. Atendendo ao sinal de Earnán, um homem abriu caminho, guiando uma figura encapuzada.

– Meu senhor, Thorbjörg está aqui – disse o homem.

– Senhora  Thorbjörg, é uma honra receber a Völva – disse Earnán.

Então foi oferecida a Thorbjörg uma boa recepção, como era costume ao se receber mulheres desse tipo. Todos a cumprimentaram com cerimônia, e ela retribuía conforme julgava que devia, a cada homem.

 

Earnán a conduziu pelas mãos até um assento alto e um thrall trouxe comida e bebida.

– Senhora, por favor sirva-se com hidromel e comida. Há corações fervidos de todas as espécies de animais que pode ver nesta fazenda – disse Earnán indicando todo aquele território com os braços abertos.

Thorbjörg comia e olhava para longe, como se estivesse descortinando toda a extensão da propriedade, mas permanecendo em silêncio.

– Senhora Thorbjörg, como sabe, é chegado o auge do inverno. O céu se escureceu. A caça foi pouca e alguns homens não retornaram. A geada destruiu a maior parte da colheita. Muitos animais do rebanho morrem de frio e de fome. Os rios congelaram, há poucos peixes. Quase não há comida para as próximas semanas. A senhora enxerga como será a estação que se avizinha? Essa escassez por que passamos terá fim?

– Earnan, não me tomes por ingênua, pois tenho olhos para ver e ouvidos para ouvir. Sei o que se passa no Norte e sei que há mais entre tuas preocupações do que o rigor do inverno – disse a völva, fazendo sua voz ser ouvida pela primeira vez para a multidão que assistia.

– É verdade. Convidamos todos os líderes, mesmo os insatisfeitos, para a celebração do Yule. Pela batalha resgatamos Astrid, mas não a confiança dos muitos que se ressentem de um príncipe estrangeiro. Os povos se unirão a nós neste Yule e a insatisfação de todos chegará ao fim?

– Eu entendo – disse Thorbjörg simplesmente.

O mesmo homem que havia guiado a völva até ali então apareceu novamente, trazendo um cesto com um chifre para beber hidromel, um ramo de sempre-viva e as pedras rúnicas de Thorbjörg.

– Tragam a mim todas as mulheres que tenham o conhecimento para realizar os encantamentos conhecidos como Vardlokur, os cantos para despertar e atrair os espíritos!

Durante alguns momentos, todos procuraram entre os ouvintes, e não encontram ninguém.

– Senhora, não há mulher alguma com tal conhecimento aqui...

Uma outra mulher então interrompeu, falando do meio do público.

– Eu não tenho grande instrução, nem sou uma sábia, mas Halldís, minha mãe de criação, me ensinou, na Islândia, o conhecimento que ela chamava Vardlokur.

– Então és mais sábia do que eu poderia imaginar. Qual é seu nome?

– É Gudrídr. Mas eu não tenho intenção de interferir nesta prática, pois sou uma mulher cristã – e dizendo isso, a mulher segurou o cruxifixo que trazia ao pescoço.

– Poderia acontecer de tudo... Seria de grande ajuda aos homens por aqui, sem que tu te tornasses uma mulher pior com isso – disse a völva. – Mas é Earnan quem eu encarrego de me prover aqui com aquilo de que preciso.

– Gudrídr, eu te peço, ajude a völva...

A mulher ficou com o olhar baixo, pensativa, em dúvida.

– Você também vive neste povoado! – insistiu Earnán. – Sabe que precisamos nos unir e colocar um ponto final nisto! O granizo trouxe o caos e a fome no inverno passado. Precisamos de toda ajuda para que este tempo de catástrofe seja, ao invés, de transformação e renascimento!

– Pois então digo que sim, farei como me pede, mas preciso de outras que me ajudem, pois os espíritos da natureza se alegram com as vozes de muitas.

Algumas mulheres atenderam ao chamado de Gudrídr e formaram um círculo ao redor da Völva, afastando a multidão para ficarem em volta de Thorbörg, que continuava sentada. Gurdídr então recitou o cântico tão belamente e tão bem que julgaram nunca ter ouvido antes com tão bela voz.

 

Quando terminou, Thorbörg levantou de seu lugar, foi até Gudrídr e segurou suas mãos.

 

– Eu te agradeço. Muitos espíritos agora estão próximos de nós, pois acharam muito belo o que foi recitado. Mesmo aqueles que antes queriam se afastar de nós, sem prestar qualquer atenção aos nossos apelos – a völva fez uma pausa e se dirigiu a todo o povo antes de continuar – Agora vejo com clareza muitas coisas que antes eram negadas tanto a mim quanto aos outros. Posso dizer que as desavenças terminarão neste inverno, e que o que for colhido da terra melhorará com a chegada da primavera; mas vejo uma grande tristeza se aproximar em um inverno futuro.

Dramaticamente a völva permitiu alguns momentos de silêncio, em que as pessoas trocaram olhares e certamente se perguntaram que grande tristeza era aquela que viria num próximo inverno.

– A ti, Gudrídr, eu hei de recompensar pelo auxílio que nos prestaste, pois as previsões para o teu futuro estão agora totalmente claras para mim. Tu terás núpcias aqui nestas teras, que serão as mais honoráveis. Contudo, não durarão tanto, pois os teus caminhos te levam a outro lugar, com outro povo, e de lá partirá de ti uma linhagem grande e boa; sobre os teus descendentes brilhará uma luz resplandecente. E agora fica bem e sã, minha filha.

Sem esconder sua satisfação com as palavras da völva, Gudrídr fez uma reverência e voltou para o meio da multidão que assistia.

– Já sobre tu e tuas desavenças, Earnán, nada dizem os espíritos, pois nada têm a dizer. Ora, não veem que já estão reunidos desde cedo? Que um convidou à sua casa e o outro viajou de bom grado para celebrar o solstício? A desavença entre você e os povos já está morta. Estes são tempos felizes, celebrem! Celebrem a morte do inverno e o renascimento do Sol! Festejem o Yule!

 

Animadas e incentivadas, as pessoas agradeceram à völva.

– São ótimas notícias, Povo do Norte! É hora de celebrar! Vamos em direção às fogueiras: lá comemoraremos!

O chifre soou novamente, convocando as pessoas para as festividades que começariam naquele momento e durariam a noite inteira. O povo foi conduzido pela floresta, enquanto o sol se punha, para uma área com tendas e fogueiras, onde aconteceria a parte noturna da celebração.

Música, dança e comida farta marcaram a noite, e por várias horas aquelas pessoas esqueceram todos os rigores do inverno. Não havia diferenças entre vizinhos, todos faziam parte de um mesmo povo.

Apenas uma pessoa não foi capaz de aproveitar toda aquela celebração: Astrid. Embora tentasse dar atenção a todos os convidados, muitos dos quais haviam vindo de longe, seus pensamentos não deixavam seu pai, o Rei Eiðr, que em nenhum momento saiu de seu salão, onde ela o havia deixado naquela manhã.

O Yule foi um absoluto sucesso, os deuses estavam contentes e o povo também. Na memoria de todos aquela noite ficaria marcada como uma boa lembrança, que traria forças para enfrentar as adversidades do novo período que começava. Quanto ao futuro do Rei Eiðr e sua filha Astrid, apenas as Nornas poderiam dizer o que estaria por vir...